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Guia Para a Linguagem Oral Não-binária ou Neutra

Eu quis fazer um post sobre o dia da visibilidade trans (29 de janeiro), mas como vocês sabem, nem sempre dá. Então resolvi trazer isso pra vocês hoje.

Pessoas não-binárias também são trans. Geralmente elas são esquecidas nos discursos sobre transgeneridade, então resolvi transcrever esse guia muito útil escrito por Cari Lobo em um coletivo não-binário brasileiro sobre formas muito úteis e convenientes de tratar pessoas não-binárias oralmente!

Espero que gostem! Eu amei. :3

Os links do Google Translate do texto original foram tirados porque agora ele “corrige” pronomes “errados”.

Com o intuito de evitar o binarismo e o cissexismo, os quais são preconceitos muito recorrentes na sociedade e que oprimem não-bináries, é essencial a existência de um sistema de linguagem não-binária ou neutra. O sistema do uso de “x” ou “@” no lugar de terminações binárias “a” ou “o” só funciona na linguagem escrita e não na oral (logo, só funciona pra quem enxerga), por essa razão que este sistema em questão é necessário.

Esse sistema de linguagem oral não-binária ou neutra é somente válido para relações entre pessoas, ou seja, pessoas se referindo a pessoas; o sistema não é válido para relações com objetos ou com animais, portanto, o sistema de linguagem para relações pessoa-objeto e pessoa-animal permanece o mesmo. Por exemplo, a frase “essa é a minha cadeira” não muda.

Este sistema foi denominado de “linguagem oral não-binária ou neutra” ao invés de somente “linguagem oral neutra”, porque o conceito de não-binário inclui todos os gêneros não-binários, então é uma noção muuuito abrangente, enquanto que a definição de neutro pode levar pessoas à confusão sobre o que é neutro neste contexto e o que ele envolve. Por exemplo, pessoas podem achar que a linguagem neutra só pode ser usada por quem é do gênero neutro, quando, na verdade, essa linguagem pode ser usada por qualquer pessoa independentemente de seu gênero.

Para se acostumar com essa linguagem, é preciso muito treino e tentativa-e-erro, pois desde que nascemos, somos treinades socialmente a falar no binário, uma vez que a língua portuguesa já é construída assim. Então, é naturalmente muito difícil falar de forma neutra.

A ideia deste guia não é o de ser uma verdade universal que não se pode criticar. Não-bináries são livres para escolher seus próprios sistemas de linguagem neutra e devem ser respeitads sempre. O guia serve como um auxílio.

O guia está dividido em duas partes, sendo que a primeira se refere a um sistema gramatical e a segunda, ao sistema de reformulação de frases. Essas duas opções de linguagem oral não-binária podem ser usadas juntas para complementar a linguagem.

Este guia foi uma criação em conjunta.

* O que está marcado com asterisco (*) possui conteúdo da seguinte fonte.

1ª Parte: Sistema Gramatical

I) Sistema El.

Pronomes: el, els, del, dels, nel, nels, aquel e aquels.

Sistema El surgiu pela simples deleção da vogal marcadora de gênero no final dos pronomes.

Substituição dos pronomes pessoais “ela(s)” ou “ele(s)” pelos pronomes não-binários “el(s)”.

Pronomes pessoais de 3a pessoa: El (no singular) e Els (no plural). Pronuncia-se “éu”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes possessivos “dela(s)” ou “dele(s)” pelos pronomes não-binários “del(s)”.

Pronuncia-se como “déu”, semelhantemente ao pronome “el”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes “nela(s)” ou “nele(s)” pelos pronomes não-binários “nel(s)”.

Pronuncia-se como “néu”, semelhantemente ao pronome “el”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes demonstrativos “aquela(s)” ou “aquele(s)” pelos pronomes não-binários “aquel(s)”.

Pronuncia-se como “aquéu”, semelhantemente ao pronome “el”.

Exemplos de uso:

-Aquela menina é a Ariel? —> Aquel menine é Ariel?

II) Sistema Ilu.

Pronomes: ilu, ilus, dilu, dilus, nilu, nilus, aquel e aquels.

Sistema Ilu surgiu a partir do pronome neutro do latim, que é illud.

Substituição dos pronomes pessoais “ela(s)” ou “ele(s)” pelos pronomes não-binários “ilu(s)”. Pronuncia-se “ílu”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes possessivos “dela(s)” ou “dele(s)” pelos pronomes não-binários “dilu(s)”.

Pronuncia-se como “dílu”, semelhantemente ao pronome “ilu”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes “nela(s)” ou “nele(s)” pelos pronomes não-binários “nilu(s)”.

Pronuncia-se como “nílu”, semelhantemente ao pronome “ilu”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes demonstrativos “aquela(s)” ou “aquele(s)” pelos pronomes não-binários “aquel(s)”.

Nota da editora: “Aquel” parece ser melhor que “Aquilu” pra não ser confundido com “Aquilo” que geralmente é usado pra descrever objetos, não pessoas, e pode ser ofensivo.

III) Sistema Elu.

Pronomes: elu, elus, delu, delus, nelu, nelus, aquelu e aquelus.

Sistema Elu surgiu pelo desenvolvimento do Sistema Ilu para se aproximar mais de “ele/ela”.

Substituição dos pronomes pessoais “ela(s)” ou “ele(s)” pelos pronomes não-binários “elu(s)”. Pronuncia-se como “êlu”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes possessivos “dela(s)” ou “dele(s)” pelos pronomes não-binários “delu(s)”.

Pronuncia-se como “dêlu”, semelhantemente ao pronome “elu”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes “nela(s)” ou “nele(s)” pelos pronomes não-binários “nelu(s)”.

Pronuncia-se como “nêlu”, semelhantemente ao pronome “elu”.

Exemplos de uso:

Substituição dos pronomes demonstrativos “aquela(s)” ou “aquele(s)” pelos pronomes não-binários “aquelu(s)”.

Pronuncia-se como “aquêlu”, semelhantemente ao pronome “elu”.

Exemplos de uso:

IV) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.

Exemplos de uso:

Outra alternativa é deixar de pronunciar as vogais que demarcam gênero ou então colocar um “s” no final depois de tirar a vogal. Também dá pra fazer outras modificações, como em “bonitin” e “fofis”.

Exemplos:

Quando a palavra termina em “-go”, “-ga”, “-co”, “-ca”, adiciona-se “-gue” ou “-que” no lugar ou simplesmente retira-se a vogal do final.

Exemplos de uso:

No caso de palavras que terminam em “-r” no masculino e “-ra” no feminino (professor/professora) e que no plural fica “-res” ou “-ras” (professores/professoras), adiciona-se “-re” no final da palavra no singular e, para o plural, adiciona-se “-ries”.

Exemplos de uso:

Quando a palavra termina em “-ão” no masculino e “-ã” no feminino, substitui-se com “-ane”.

Exemplos de uso:

V) Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”.

Exemplos de uso:

VI) Substituição dos pronomes possessivos “teu(s)” ou “tua(s)”, “seu(s)” ou “sua(s)” pelos pronomes não-binários “tu(s)” ou “tue(s)”, “su(s)” ou “sue(s)”.

Exemplos de uso:

VII) Substituição dos pronomes possessivos “nosso(s)” ou “nossa(s)”, “vosso(s)”ou “vossa(s)” pelos pronomes não-binários “nosse(s)” e “vosse(s)”.

Exemplos de uso:

VIII) Uso dos pronome pessoais oblíquos “-ne” e “-le” ao invés de usar “-o”, “-a”, “-no”, “-na”, “-lo” ou “-la” para objetos diretos.

Exemplos de uso:

IX) Substituição dos pronomes demonstrativos “essa(s)” ou “esse(s)” e “esta(s)” ou “este(s)” pelos pronomes não-binários “est(s)”. Pronúncia pode ser algo como “ést”. “Est” funciona como substituto para “essa/esse” e “esta/este”.

Exemplos de uso:

X) Substituiçao de “própria(s)” ou “próprio(s)”, “mesmo(s)” ou “mesma(s)” por “próprie(s)”.

Exemplos de uso:

XI) Quando necessário, substituição dos numerais “um”, “uma” e “dois”, “duas” pelos numerais não-binários “ume” e “dues”. Outra alternativa é optar sempre pelo numeral feminino.

Exemplos de uso:

XII) Substituiçao dos artigos definidos “a(s)” e “o(s)” pelos artigos definidos não-binários “le(s)”.

Exemplos de uso:

2ª Parte: Reformulação de frases

I) Referência a partes do corpo de uma pessoa ao invés de se referir diretamente à pessoa.

Exemplos de uso:

II)* Uso generoso de termos neutros ou comuns de dois gêneros como “pessoa”, “jovem”, “colega”, “estudante”, “criança”, “docentes”, “alguém”, “contato”, “público”, “criançada”, “gente”, “indivíduo”, “integrante”, “sujeito”, “humanidade”.

Exemplos de uso:

III)* Supressão de artigos e pronomes.

Exemplos de uso:

IV)* Uso de alternativas como “de” (ao invés de “da” ou “do) e “lhe” (ao invés de “a” ou “o”).

Exemplos de uso:

V)* Uso de voz passiva, gerúndio e outras mudanças na estrutura das frases.

Exemplos de uso:

VI) Uso da preposição “por” no lugar de “pelo” ou “pela”.

Exemplos de uso:

VII) Sempre usar a preposição essencial “a” e nunca “ao”.

Exemplos de uso: