Trivialização da morte e fantasias de superação

Eu tenho sentimentos muito intensos relacionados a bombas nucleares.

Isso pode soar um pouco ridículo, considerando que sou uma guria branca de 26 anos de idade que nasceu e viveu sua vida inteira no Brasil. Mas eu sempre sinto uma angústia muito profunda dentro de mim quando eu ouço falar sobre qualquer coisa envolvendo os ataques nucleares contra Hiroshima e Nagasaki no final da segunda guerra mundial.

Acho, então, que esse seja o motivo pelo qual o primeiro filme de Godzilla, de 1954, me causa tanta catarse emocional.

Você consegue parar pra imaginar o horror que representa o Godzilla? Um monstro tão grande e poderoso que é capaz de destruir o seu lar e matar todas as pessoas que você ama pelo simples ato de andar.

Além disso ele é indestrutível. Revivido pelas monstruosas armas nucleares da américa do norte, não existe nada que o pequeno arsenal de defesa pessoal do povo japonês possa fazer. E mesmo assim, o povo japonês perdura.

Não há o que se celebrar nesse Samhain.

Na madrugada do dia 30 de Abril para o 1º de Maio, a minha religião, a Wicca, celebra o Samhain – O Dia dos Mortos. E se você quiser aprender mais sobre, aqui vai um link.

Acontece que eu nunca imaginei que nós passaríamos por um Samhain tão mortal. Centenas de pessoas são infectadas todos os dias, e mais uma centena é morta enquanto os líderes das nossas nações dizem “e daí?”

Muitas pessoas comuns também são convencidas de que toda essa morte não é grandes coisa. Afinal de contas, se não me afeta, por que devo me importar? A gente sabe quantos judeus foram torturados e assassinados nos campos de concentração da Alemanha Nazista. Mas isso impede turistas ignorantes de tirar selfies “divertidas” no meio do Memorial do Holocausto em Berlim?

Há um momento na terceira temporada de The Expanse que me incomoda muito, relacionado a mortes em massa.

Esse é um seriado que hoje está sendo produzido e distribuído pela Amazon Prime, onde é mostrado um conflito entre Terra, Marte e os Planetas Exteriores num futuro hipotético onde a humanidade foi capaz de colonizar os outros planetas do sistema solar.

Durante esse conflito, as Nações Unidas da Terra lançam um ataque contra estações de defesa marcianas afim de mostrar o seu poderio tecnológico. O ataque, entretanto, dá errado, e uma ogiva nuclear é lançada de uma das bases marcianas e atinge o planeta Terra. Especificamente a parte norte da América do Sul.

2 milhões de pessoas morrem nesse acidente, e isso é tratado como um fracasso do governo terráqueo. O Secretário Geral das Nações Unidas (equivalente a um “presidente da terra” nesse universo) renuncia o seu cargo, e o povo da Terra começa a atacar o próprio governo e exigir reparações pelo desastre.

Poucas coisas nessa vida me assustam mais do que um ataque nuclear. Um ataque nuclear faria muito mais do que simplesmente “matar 2 milhões de pessoas”.

Um ataque nuclear são meses de dor e sofrimento onde ninguém pode tentar se quer ajudar os sobreviventes. Pra ter uma noção um pouco mais realista do que significa um ataque nuclear eu recomendo esse vídeo: “E se jogarmos uma bomba nuclear numa cidade?” por Kurzgesagt.

O que torna Godzilla especial pra mim é que ele dá forma para o horror que foram os bombardeios no Japão ao final da segunda guerra.

Pra começar, a pele do Godzilla é chamuscada, rachada e protuberante. Extremamente parecida com os queloides que cresceram nas pessoas que sobreviveram os ataques nucleares de ‘45.

Com suas garras gigantescas ele facilmente destrói toda a infraestrutura de Tóquio. A cada passo que ele dá, um lar e destruído e pessoas são esmagadas pelo seu peso gigantesco. E mesmo quem consegue sobreviver a isso tudo, acaba sendo queimado vivo pelo bafo atômico jorrado por esse monstro de 50m de altura.

Minha cena favorita acontece lá por 1 hora e 20 minutos de filme. É uma montagem passando na televisão, com um coral de crianças cantando uma música sobre esperança enquanto as imagens mostram vítimas sendo tratadas em hospitais cheios e corpos sendo levados para o seu enterro.

Esse é o momento chave do filme, onde Dr. Serizawa se emociona o suficiente para que ele use a tecnologia perigosa que ele criou apenas uma vez. Para impedir que mais mortes aconteçam e que mais crianças sejam obrigadas a passar sua juventude sem seus pais.

Em The Expanse, o horror nuclear é uma falha política que simplesmente desequilibra a balança do poder por alguns anos. Em Godzilla, entretanto, ele é literalmente um monstro de proporções inimagináveis que causa dano real a cada pessoa que aparece na tela, mesmo que nenhum dos protagonistas morra.

Nós temos uma tendência ao nosso sofrimento ser inversamente proporcional ao número de mortes de alguma tragédia. Cada acidente de avião é um grande “eita” pra mídia televisiva, mas centenas de pessoas morrendo todos os dias? Só mais números para a estatística.

No primeiro Star Wars, Alderaan é só uma bola de isopor que explode bonito. A princesa Léia diz que Alderaan era o seu lar e onde vivem todas as pessoas que ela ama, mas ela não demonstra qualquer tipo de reação emocional que se esperaria de alguém que vê o seu planeta inteiro sendo destruído em questão de segundos. Ela só fica meio brava.

A mesma coisa acontece na nova trilogia de Star Wars e com a maioria dos filmes de super herói. Já repararam que nenhum filme de herói dos irmãos Russo se importa com o que acontece com os figurantes?

Até os sucessores de Godzilla, na forma de séries Tokusatsu e filmes de Kaiju, parecem ignorar o fato de que um monte de gente morrendo é ruim. E que cada uma dessas mortes tem repercussões bem mais abrangentes do que um número numa prancheta.

O mood desse momento que a gente tá vivendo é de desespero. Desespero e uma sensação bem real de que o mundo tá acabando. E as pessoas que deveriam cuidar das estruturas da sociedade pra impedir que a gente morra estão ativamente lutando para que a gente morra. Para que nos sacrifiquemos “pelo bem da economia”.

Algumas pessoas estão chamando os movimentos da direita conservadora pelo fim do afastamento social de “culto à morte”, mas essas pessoas estão, na verdade, fazendo a mesma coisa que todos esses filmes de ação onde uma caralhada de gente morre sempre fizeram: Ignorando a morte. Fingindo que ela não tem nada a ver com eles. Para essas pessoas mortes são números, não tragédias que vão traumatizar a vida de várias pessoas por anos a vir.

Então, ironicamente, é o Godzilla que me traz conforto nessa época de catástrofes. Pois com organização, solidariedade e criatividade a gente consegue até derrotar uma bomba nuclear ambulante. Ou pelo menos nos filmes a gente consegue.

Abençoado Samhain pra vocês.

Até mais.



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