Resenha: Horse Girl, Entre Realidades

Horse Girl (“Entre Realidades” no Brasil) é um filme que estreou no sundance film festival em janeiro de 2020 e foi distribuído para exibição doméstica pelo Netflix recentemente.

Eu resolvi assistir ele por inércia. A minha namorada e o nosso colega de apartamento acharam o trailer intrigante e eu não queria ficar sozinha no quarto olhando pro teto.

Ele conta a história de uma mulher chamada Sarah que sofre de algum tipo de psicose que eu não sei identificar. Chegando no que parece ser o ápice da sua solidão gerada pela a sua inadequação social, a personagem começa a ter sonhos estranhos e acreditar veemente que é um clone da própria vó e está constantemente sendo abduzida por alienígenas.

Fica aqui meu Trigger Warning pra descrição de crises psicóticas.

Esse filme não tem um arco narrativo. Cada “ato” dele é uma ilustração dos traumas da protagonista. Existem apenas alguns pontos importantes que são feitos sobre a protagonista durante a primeira metade do filme:

  1. Ela é sozinha e tem dificuldade em fazer amigos.
  2. Ela é extremamente apegada a um cavalo que ela cavalgava quando mais jovem, mas perdeu a guarda desse cavalo por algum motivo não explicado e nunca conseguiu aceitar o fato de que ele não é mais dela. Então vive indo visitar o animal quando claramente ninguém quer ela lá.
  3. Ninguém realmente se importa com a protagonista, e se fazem algo bom pra ela, é por pena (ou senso de obrigação no caso do padrasto).

Depois que ela começa a ter os sonhos, o filme se torna numa “galeria” dos delírios que a personagem sofre e das ações que ela toma por causa desses delírios. Ações estas que vão gradualmente deteriorando as poucas relações que a protagonista tem.

Todo mundo no filme trata ela como um incômodo ou como uma coitada. E querendo ou não, ela realmente está sendo um incômodo… Espalhando incensos pela casa, ligando eletrônicos pra afastar os alienígenas, e levando o cara que tava afim dela pra cavar a cova da mãe pra pegar um frasco de DNA.

Eu sofri de sintomas psicóticos por muito tempo da minha vida. Eu não tinha delírios sobre etês vindo me pegar nem de que eu era o clone de alguém, mas sempre que eu saía de casa eu tinha certeza absoluta de que alguém ia me esfaquear pelas costas por um motivo ou outro. E eu não digo no sentido figurativo de “traição” ou coisa assim. Eu digo literalmente uma faca atravessando a minha coluna vertebral.

O filme todo tava me deixando meio desconfortável, mas intrigada. Até o momento que ela perde consciência e acorda nua no meio da loja onde ela trabalha durante o horário comercial.

Já teve uma vez que eu tava com tanto medo de alguém me machucar que saí correndo pelada de um quarto de pensão no meio da tarde. A pessoa que estava comigo me segurou e me colocou de volta no quarto antes que eu chegasse na sala de entrada.

Aí dói quando o negócio chega perto de casa né…

Depois disso ela acaba sendo internada numa instituição psiquiátrica e eu comecei a respirar pesado e entrar numa crise de ansiedade.

É um pouco perturbador como o filme demonstra os profissionais de saúde. Assim como todos os outros personagens do filme, eles não dão uma foda pra Sarah. E o pior disso tudo é o quão bem isso me lembrou o tempo que eu passei internada: ninguém dava uma foda pra mim.

Eu comecei a chorar e parei de ver o filme.

Eu sei que isso acabaria com o “twist” do filme, mas sinceramente… Qualquer obra áudio visual que reproduz sintomas psicóticos alí na tela pro espectador neurotípico também sentir o negócio devia vir com um trigger warning. Pelo menos Hellblade teve a decência de avisar que o jogo pode desencadear crises e oferecer links de suporte e formas de parar o jogo e procurar ajuda caso alguma coisa desse errado.

Eu não estava – não estou – em condições emocionais de ver o resto do filme. Mas eu queria saber como termina então fui perguntar pro google.

Aparentemente, Sarah é liberada do hospital depois de 72 horas (tempo funciona de um jeito estranho nesse filme, então sabe-se lá se foi realmente só 72 horas ou se isso realmente aconteceu). Então ela vai e rouba o cavalo “dela” do estábulo e os dois cavalgam pra longe até chegar numa clareira no meio da floresta, onde Sarah desce pra descansar e é abduzida por um disco voador que está passando por alí.

Eu não sei qual foi a intenção do autor, mas eu me senti meio ofendida com esse final.

Antes disso, no hospital, Sarah acaba revelando que a sua mãe havia se suicidado um tempo atrás. Considerando que ela acredita que ela, sua mãe e sua vó são clones da mesma pessoa e todas eram perseguidas por alienígenas, é fácil chegar na conclusão que a sua abdução final também foi o seu momento final, e que ela provavelmente cometeu suicídio.

Que mensagem isso traz? Ninguém suporta a Sarah. Ela é um incômodo pra todas as pessoas ao redor dela. Ela não pode confiar em ninguém exceto na realidade que ela inventou na sua própria cabeça, então o seu único final lógico é o suicídio. O único final lógico pra qualquer pessoa que sofre de algum tipo de psicose é o suicídio.

Eu senti a mesma coisa assistindo Coringa ano passado. Que a única saída pra pessoa neuro atípica é o crime e o eventual isolamento.

E toda vez que eu vejo essa mensagem eu entro em Pânico. Porque significa que a única saída que existe pra mim, mesmo que eu já tenha melhorado muito nesses últimos 2 ou 3 anos, é o isolamento e/ou a morte.

E isso não é verdade. Então pau no cu desses filmes.

Desculpa trazer um assunto tão pesado no meio da pandemia, mas eu precisava botar isso pra fora.



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