Pais de Videogame e Masculinidade: Geralt e Kratos

Hoje é Yule, a noite mais longa do ano, onde o nascimento da Criança da Promessa coincide com a Caçada Selvagem de Odin.

Ano passado eu expliquei pra vocês os básicos do Yule e o que nós da Wicca celebramos no dia 21 de junho.[1] Mas pra quem não leu: Esse feriado se trata do nascimento da “Criança da Promessa”, onde celebramos as bênçãos da maternidade, da paternidade, e da união e amor familiares.

Naquele texto eu acabei expressando uma certa frustração por praticamente não existirem videogames sobre maternidade no mercado mainstream. Por outro lado, a Paternidade vem sido muito bem trabalhada nas últimas duas gerações. Parece lógico o motivo pelo qual isso acontece: A grande maioria dos desenvolvedores de videogame são homens e muitos deles hoje em dia tem filhos pequenos, e experiência pessoal suficiente com os desafios da paternidade que pode ser refletida nos seus trabalhos artísticos com exatidão.

Eu não sou pai nem mãe. Pretendo ter filhas algum dia na minha vida, mas eu estou muito longe da maturidade emocional e da condição financeira social para realmente criar uma criança. Entretanto, eu sou filha, já fui filho, e eu tenho pensando muito em como a relação com meu pai poderia ter sido diferente e mais sadia se ele visse os exemplos de pais que eu vejo nos videogames hoje em dia.

Spoilers de God of War III e God of War (2018) a frente.

No documentário do noclip sobre o desenvolvimento de God of War (2018) Cory Barlog, o diretor criativo do jogo, fala sobre um acontecimento muito inusitado e muito emocionante que aconteceu entre ele e um fã do jogo que ele encontrou no bar de um evento de jogos.[2]

“A gente estava na festa da What’s Good Games e um cara no bar simplesmente chegou em mim e ele já tava meio emocionado logo de cara. E ele falou tipo ‘Opa, só quero dizer, jogo maravilhoso, mas eu quero te falar uma coisa.’ Ele tava tipo ‘Eu não quero soar esquisito e tal’ e eu só falei pra ele ‘tá de boa, manda aí.’ E ele começou a falar que ele jogou o jogo, e que o jogo afetou tanto ele, que ele começou a entender melhor o seu pai. Ele havia se afastado do seu pai há muito tempo, mas o jogo o impactou tanto a ponto dele ligar pro pai no mesmo dia. Eu perguntei ‘Vocês ainda estão conversando?’ E ele me disse ‘A gente tá reconstruindo. Eu ainda falo com ele e parece que a gente tá no caminho certo.’ E tipo, imaginar que você é capaz de fazer algo que faz duas pessoas distantes se reencontrarem? Onde existiu algum desencontro e eles perderam a oportunidade de entender um ao outro? E esse jogo ajudou ele a ver o lado do pai. Ajudou ele a entender que talvez existisse algo alí que ele simplesmente não podia dizer. Ajudou ele a entender que seu pai tinha alguma dificuldade, e em vez de culpar o pai por tudo ele me diz que ‘eu sinto que eu preciso me reconectar com ele’ e isso explodiu a minha mente.”

Cory Barlog (2019)
Tradução livre por mim.

Pra quem não conhece, God of War (2018) é um reboot da série de jogos God of War que começou em 2006 lá no Playstation 2. Nesse reboot, o guerreiro espartano Kratos, protagonista de todos os jogos da série, está velho, cansado e cheio de arrependimentos das suas ações do passado.

Ele fugiu para a terra dos mitos nórdicos, se apaixonou por uma mulher lá, se casou, teve um filho e começou a tentar viver uma vida tranquila tentando esquecer toda a destruição que ele causou nos jogos anteriores.

Entretanto, a sua esposa morre. Kratos e o seu filho de 13 anos, Atreus, cremam o corpo da mulher como ela havia pedido, e partem para realizar o seu último desejo: Jogar as suas cinzas ao ar do pico mais alto de todos os 9 reinos. Essa jornada, entretanto, acaba se tornando muito mais complicada quando os dois descobrem que os deuses nórdicos estão indo atrás deles para, aparentemente, mata-los.

Esse mês eu finalmente consegui jogar God of War (2018), e ele é um jogo simplesmente fenomenal.

Eu posso falar muito sobre as mecânicas de combate e exploração, sobre os detalhes da criação de mundo ou sobre interpretações diferentes que o jogo faz das Eddas. Mas o que realmente me interessa aqui é a relação de pai e filho entre Kratos e Atreus e entre SPOILER e SPOILER.

Acho que Kratos representa todas as piores partes da masculinidade tóxica. Do primeiro jogo [God of War (2006)] até o God of War III o Kratos não era nada além da violência encarnada. A única capacidade desse Kratos era matar e transar. E as vezes até matar as mulheres que a pópria câmera do jogo (ou seja, provavelmente na perspectiva do próprio Kratos) sexualizava.

Em todas as situações de estresse emocional onde kratos poderia se sentir triste, traído ou abandonado a única coisa que ele era capaz de sentir e expressar era a raiva. Inclusive ficar MUITO PUTO era uma mecânica de jogo. Spartan Rage é o poder de super força e invulnerabilidade que o Kratos consegue invocar quando tá MUITO PISTOLA.

Mas o Kratos de 2018? Ele tá muito velho pra sentir tanta raiva das coisas. Só que aí entra o problema que ele não sabe sentir nada além de raiva. Quando a primeira esposa dele morreu ele ficou com tanta raiva que resolveu sair pra matar um deus! Mesmo que o único culpado pela morte da própria esposa tenha sido ele mesmo.

A segunda esposa do Kratos morreu de doença. Ele vai sentir raiva de quem? Mesmo que ele resolvesse sair em outra jornada genocida pra matar todos os deuses de Asgaard ele tem um filho pra cuidar agora. E querendo ou não, ele sabe que essa criança é a melhor chance dele de parar o ciclo de violência patricida que definiu a história da sua família (ele é filho de Zeus, e se você conhece mitologia grega acho que sabe oque eu quero dizer com “ciclo patricida”).

Depois que Atreus nasceu, Kratos não passou muito tempo com o filho. Então ele acabou herdando mais traços de personalidade da sua mãe do que do seu pai. Ele é sensível, expressivo e emotivo, então acha estranho o fato de que o pai dele fica em silêncio sobre a morte da sua mãe durante todo o primeiro ato do jogo. Kratos, num momento impaciente, responde: “Não confunda meu silêncio com falta de pesar! Lamente como quiser, e deixe-me lamentar em paz.”[3]

Acho que foi a partir desse ponto que pai e filho realmente começaram a entender um ao outro. Aí, querendo ou não, houve a abertura para que os dois começassem a compreender um ao outro, e identificar um sentimento em comum entre os dois: O luto.

Existe esse… negócio quando a gente tá falando da nova extrema-direita de internet que se chama “Redes de poder” ou “Networks of power”.*

A rede de poder descreve o tipo de relações interpessoais que existem em grupos de ódio, como neo fascistas, gamergate[4] e incels (“celibato involuntário”).

Nesse tipo de relacionamento, os membros desses grupo se reúnem pela sua capacidade de exercer poder sobre outras pessoas. Exemplos:

  • Lol eu fiz essa feminazi chorar
  • Essa guria não quis ficar comigo, vô fudê a vida dela
  • Nós somos fortes, os degenerados são fracos!
  • É responsabilidade civil de qualquer um de nós infectados passar o coronavírus para essas pessoas que a gente odeia.

Mas acontece que para uma rede de poder acontecer, ela não precisa estar estritamente ligada a um grupo de ódio. A única coisa que precisa existir dentro de um grupo de pessoas para alimentar uma rede de poder é o patriarcado e todos os privilégios, preconceitos e dinâmicas de poder que ele traz.

Eu passei a maior parte da minha vida fingindo ser homem e com um pai querendo constantemente me colocar no mesmo caminho de “virilidade” que ele.

Em outro texto eu chamei isso de rede de virilidade [5]. É quando homens começam a discutir entre eles o tamanho do pau, quantas mulheres já pegou, quanto peso levantou na academia…

Essas pessoas, em suma, se relacionam por quão foda eles mesmos acreditam ser.

Em contrapartida, existe a ideia da rede de vulnerabilidade. Em teoria, é através da partilha das suas vulnerabilidades mais internas com o resto da sua comunidade que criaria um grupo de pessoas verdadeiramente forte, que está sempre disposto a fazer o trabalho complexo de transformar as pessoas desse grupo nas melhores versões de si mesmas.

Kratos viveu sua vida inteira num mundo de competição, força, virilidade e ódio que alimentava cada uma de suas ações. Ele nunca conheceu empatia, e no pico do seu surto interminável de violência no God of War III ele fez o único movimento lógico que uma pessoa repleta de ódio poderia fazer depois de destruir todos os seus inimigos: destruir a si mesmo.

Mas com Faye, sua segunda esposa, e com Atreus, seu filho, ele conseguiu abrir o seu coração para outros sentimentos. Ele encontrou a segurança e o acolhimento necessários para compreender seus sentimentos sem ter que partir para a violência, vingança ou qualquer tipo de competição.

Okay, aqui entra um spoiler gigantesco pra God of War (2018). Não diga que eu não avisei. Se não quiser o spoiler pode pular pro próximo gif.

A situação de Kratos e Atreus é completamente diferente do que acontece entre Baldur e Freya.

É. Em God of War, Freya é mãe de Baldur. Vamos considerar isso uma liberdade poética e seguir em frente.

Eu não consegui me identificar muito com a relação entre Atreus e Kratos, mas eu consegui me ver um pouco mais do que eu gostaria no que o Baldur sente pela própria mãe.

Ele a odeia por tê-lo feito imortal. E por mais que a Freya tente explicar que só fez isso pelo bem do seu filho, ele não quer saber. “Você roubou uma vida inteira de mim!” Grita Baldur na batalha final contra Kratos e a sua mãe.

Acontece que o feitiço que a Freya fez para tornar o seu filho imortal também fez com que ele fosse completamente incapaz de sentir as coisas. Ele não sente dor, sim, mas também não sente prazer. Ele não é capaz de sentir nada além de rancor.

Os seus pais, Odin e Freya, provavelmente estavam separados por mais tempo do que ele consegue se lembrar. E ele provavelmente passou a maior parte da sua vida com o pai, portanto tendo mais tempo de diálogo com ele do que com a mãe.

Nesse jogo, Odin é representado como um tirano maligno, obcecado com poder e controle. E ele odeia Freya e todos os Vanir (a raça a qual Freya pertence), então é de se esperar que ele tenha influenciado o filho a odiar mais ainda própria mãe para que Odin pudesse garantir a morte da sua ex-esposa sem ter que sujar as suas mãos.

Então, quando a criança poderia ser criada pela mãe e procurado entender através do diálogo os medos dela e fazer-lhe compreender os seus desejos, Baldur foi na verdade criado por Odin, e outros deuses guerreiros que não conheciam nada além de sangue, batalha e competições de virilidade.

Eu odeio o meu pai. Eu já sonhei com a morte dele inúmeras vezes, tanto dormindo quanto acordada, e eu costumava dizer que, quando ele morresse, eu iria pro funeral só pra rir da cara dele.

Com frequência ele me colocava em posições extremamente desconfortáveis onde eu tinha que expressar a minha masculinidade para que ele tivesse orgulho de mim. Ele até tentou fazer com que eu e uma prima minha nos beijássemos. Naquela época eu já achava isso nojento, e hoje só piora.

A partir de certa idade ele não parava de me perguntar sobre a minha vida sexual, como se fosse a maior prioridade do mundo que ele soubesse com quem eu transei. Mas é claro que eu tinha que esconder quando transava com outros meninos.

Por causa dessas situações, do alcoolismo, e da forma horrível como ele tratava minha mãe, eu acabei criando a associação na minha cabeça de que a pior coisa que um ser humano pode ser é um homem cis hétero.

Mas será que isso é verdade?

E será que meu pai seria capaz de mudar igual o Kratos mudou?

Existe um homem em particular que vem me fazendo refletir “o que é masculinidade cishet?” Um homem fictício. Ele se chama Geralt, de The Witcher: A Saga do Bruxo Geralt de Rivia.

O bruxero, como eu gosto de chama-lo, foi a maior surpresa que eu tive ano passado.

Um amigo meu resolveu me dar The Witcher 3 de presente de aniversário, e eu imediatamente fui procurar mais sobre a série. Foi só nesse momento que eu descobri que esses jogos eram, na verdade, baseados em livros escritos pelo autor polonês Andrzej Sapkowski. Depois de ver umas resenhas bastante positivas sobre esses livros e a sua relação única com os jogos, resolvi ler O Último Desejo ao mesmo tempo que estava jogando The Witcher 2.

Eu fui muito pega de surpresa. Onde eu achava que só ia encontrar masculinidade, virilidade, violência e sexo eu acabei encontrando histórias extremamente interessantes sobre moralidade, responsabilidade, perda, abandono, mas tudo isso com um toque de diversão e esperança que só poderia existir nessas incríveis adaptações que Sapkowski fez de vários contos de fadas bem conhecidos.

Mas foi na Espada do Destino que o Geralt ganhou meu coração.

Esse livro é completamente repleto de histórias de amor. Amor não correspondido; Amor que chega rápido e vai embora nua questão de instantes; Amor proibido que jamais poderá ser consumado; Amor que desafia as leis da natureza; Amor que vem do nada e permanece contigo para sempre; Amor pela sua terra e pelo seu povo; E amor por aquele que é diferente de você.

Mas o que mais me interessa é onde o Geralt entra nessa história toda.

Existe a lenda no mundo de Witcher que os “bruxos” – os caçadores de monstros desse universo – são incapazes de ter sentimentos. Que algo durante o seu treinamento alquímico tira deles toda a sua capacidade de sentir empatia, amor ou qualquer outra coisa. E isso é uma mentira deslavada.

Geralt é amaldiçoado por essa mentira, achando que ele não é capaz de sentir nada de verdade quando ele claramente está sentindo muitas coisas.

Mas o treinamento de bruxo dele não permitiu que ele pudesse explorar suas vulnerabilidades. A única coisa que ele aprendeu na fortaleza de Kaer Morhen foi a matar – não muito diferente do Kratos.

O livro reconhece a incapacidade dele de trabalhar os próprios sentimentos e dá espaço para o protagonista ir vagarosamente se descobrindo e percebendo que a falta de sentimentos dos bruxos é uma mentira.

E isso não é verdade para a masculinidade? A famosa frase do “homem não chora” vem sendo criticada já faz bastante tempo, mas ainda faz parte do léxico de muitos homens que ainda tomam parte da competição de virilidade e suas redes de poder.

O espaço no qual Geralt consegue sintetizar os seus sentimentos confusos e complexos é através da arte. O seu melhor amigo, o bardo Jaskier, está sempre alí com uma poesia pronta na ponta as sua língua que traduz os sentimentos dele de forma que até ele consegue entender.

Dois homens, claramente cis e vigorosamente heterossexuais, nesse livro pelo menos, são capazes de perceber as fraquezas emocionais um do outro e se conectar um com o outro através dessa fraqueza.

Minha relação com o meu pai foi conturbada e traumática. Por muitos anos, na minha mente, não havia nada pior nessa terra do que ser um homem cis heterossexual. Por muito tempo eu fui completamente incapaz de tocar homens, principalmente abraça-los porque eu simplesmente criei uma rejeição interna total à masculinidade.

Mas essas obras me mostraram que… Não há nada inerentemente errado em ser um homem cishet. Geralt é o exemplo de um homem cishet que lida com as suas fraquezas de maneira saudável afim de ser o melhor pai possível para a sua filha. E o Kratos, de certa forma, me mostrou que nem o mais monstruoso dos homens está além da redenção se eles ainda são capazes de amar alguém além deles mesmos.

Devo eu, então, procurar falar com o meu pai de volta? Ou pelo menos dar o benefício da dúvida pra ele quando ele tenta se aproximar dizendo que quer ser um pai melhor dessa vez?

Talvez? Não sei.

Ele compartilhou comigo a maior parte da bagagem cultural que hoje eu uso no meu trabalho e na minha vida. Bandas de rock antigas, música erudita, filme clássicos, anime, gibis de super-herói, e ele até teve um passo importante pra formação da minha religião. (Quando eu era uma tampinha, eu pegava a enciclopédia do meu bisavô pra ler sobre mitologias antigas e mostrava todas as lendas pro meu pai, que reagia com entusiasmo.)

Mas isso não anula todos os erros que ele cometeu e toda a violência emocional que ele exerceu contra mim e contra a minha mãe.

E ele ter votado no Bolsonaro também não ajuda.

Sei lá.

ENFIM MINHAS LEITORAS LINDAS

Obrigada por ler esse negócio todo, e se você gosta desse tipo de análise manda uma graninha aí no catarse ou qualquer um dos meios de financiamento coletivo.

Amo vocês e abençoado Yule pra todas!




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