J.K. Rowling, H.P. Lovecraft e A Morte do Autor

Lovecraft Country, Episódio 1 Temporada 1.

Depois de serem rejeitados a carona em uma estrada no meio de lugar nenhum, Atticus Freeman, um homem negro que serviu o exército americano na época da segregação, ajuda uma senhora negra a carregar suas bagagens até a cidade mais próxima.

Na estrada, a senhora questiona Atticus sobre o livro que ele estava lendo, que se tratava nada mais nada menos do que menos do que John Carter, um ex general do exército no estado de Virgina que acaba sendo levado pro espaço e acaba se tornando um guerreiro marciano.

4 minutos e 58 segundos dentro do primeiro episódio de Lovecraft Country, Jordan Peele – diretor responsável por Nós, Corra! e, claro, Lovecraft Country – usa o diálogo entre as duas personagens para fazer a pergunta que eu acredito que o resto da série tentará responder.

– Espera aí. O herói é um oficial confederado?
– Ex-Confederado
– Ele lutou pela escravidão. Não se coloca um “ex” na frente disso.
– Histórias são como pessoas. Elas não tem que ser perfeitas para amá-las. Basta tentar apreciá-las… E ignorar seus defeitos.
– Mas os defeitos continuam lá.
– Estão mesmo. Mas eu amo histórias pulp. Amo ver heróis se aventurando em outros mundos, enfrentando forças invencíveis, […]

Nessa cena, Atticus esbarra nos seus próprios pensamentos, tentando argumentar por que ele, um homem negro, iria querer ler uma história de aventura sobre um homem racista que lutou pela manutenção da escravidão do seu povo.

Fãs transgêneres de Harry Potter recentemente tem se visto no mesmo lugar de Atticus. Há mais de um ano, a autora J.K. Rowling vem se mostrando timidamente transfóbica no Twitter, curtindo e compartilhando postagens de TERFs (Feministas Radicais Trans-Excludentes em inglês) bastante conhecidas por perseguir e violentar mulheres trans como “ativismo político”. No dia 10 de Junho desse ano, entretanto, Rowling postou um justificativa no seu blog pessoal para esse comportamento suspeito. No texto, entretanto, ela apenas se provou completamente transfóbica e ignorante sobre a identidade e a vida de pessoas trans.

As pessoas que estavam tentando defender Rowling, dizendo que esses compartilhamentos não passam de ignorância de uma mulher mais velha sem muita perspectiva sobre o mundo, perderam toda a validade dos seus argumentos quando ela própria se provou ser uma pessoa odiosa e intolerante.

Em luz da exposição das crenças odiosas da Rowling, críticos sobre as codificações identitárias da série de livros que ela escreveu começaram a ser levados mais a sério. Hoje em dia é impossível ignorar certas verdades Extremamente desconfortáveis sobre o cânone de Harry Potter. Por exemplo:

  • Gringotts são alegorias anti-semíticas baseadas na ideia de que judeus são vigaristas narigudos que só pensam em dinheiro
  • Rowling afirmando que licantropia é uma analogia à AIDS demonstra que, para ela e no seu mundo, homens gays são, literalmente, predadores que perdem a noção de certo e errado quando se trata de sexo.
  • O fato do Dumbledore ser gay mas nunca demonstrar, indica que para o personagem e para a autora, que a única forma boa de se ser gay é escondendo sua gayzisse do resto do mundo.
  • etc etc etc…
Identifying anti-Semitism and standing against it – The Black Wall ...

H.P. Lovecraft foi um escritor americano de histórias de mistério e horror que publicava seus trabalhos naquelas revistas “pulps” das décadas de 20 e 30. Eu falei um pouco sobre essas revistas no texto sobre a História do Preconceito Sexual na Fantasia Medieval, só que com mais foco em Robert E. Howard e Catherine L. Moore. Contemporâneos do Lovecraft.

O racismo dessas revistas era ainda mais desenfreado que o racismo da sociedade norte americana no geral. E o H.P. Lovecraft era um ser particularmente nojento. É impossível passar pelas obras deles sem ver algo terrivelmente preconceituoso com pessoas pretas.

Pessoas pretas, quando tem alguma relevância na história (o que por si só já é raro) são descritas por ele como monstros ou tendo características monstruosas. E sempre que essas pessoas aparecem, você pode ter certeza que são elas as responsáveis pela adoração e pela a invocação dos “inimagináveis” horrores cósmicos que caracterizam os vilões incompreensíveis das suas histórias.

Eu pessoalmente acho Lovecraft uma bosta. Ele era um homem com medo de tudo ao seu redor. Qualquer mínima diferença de perspectiva da realidade ao seu redor o causava pânico. Pra ele, conhecer qualquer coisa que existisse fora da causa dele já era um horror inimaginável. A história “Cool Air”, escrita por Lovecraft e publicada na edição de Março de 1928 na revista Tales of Magic and Mystery ele explica para as leitoras o seu terrível e imensurável medo vindo do horror misterioso que é o… Ar condicionado. O filho da puta tinha medo de ar condicionado, velho! Se ele tivesse vivido o suficiente pra ver a comercialização dos primeiros computadores pessoais ele ia ia surtar completamente. Acho que se ele entrasse em qualquer ambiente que tivesse um computador ou qualquer instrumento científico mais raro ele ia ter um ataque do coração e morrer alí mesmo.

Ele abominava a ideia de explorar aquilo que ainda não conhecemos, e todo personagem que ele criou que tentasse ver além do véu da sua realidade pré concebida fica “louco”. Acho que pra ele, loucura significa compreender melhor o mundo através de outras experiências. E um escritor que só vê a perspectiva do próximo como forma de criar horror e medo desse próximo não é um bom escritor.

Lovecraft, portanto, era um péssimo escritor; E um filósofo pior ainda. Ele é um pateta que ficou famoso por ter umas ideias legais de monstros. E por causa de outras pessoas que transformaram o horror dele em algo que realmente vale a pena.

King Falls AM, Welcome to Nightvale, Bloodborne, Aniquilação, Hellboy, Junji Ito, STALKER, Pathologic. Você pode ver todas essas obras, ver alguém associando elas a Lovecraft, e achar que você também gosta de Lovecraft. Você não gosta. O legado de H.P. Lovecraft foi fazer um tipo de horror extremamente mal escrito que outras pessoas viram, acharam que tinha uma coisa ou outra daora, e fizeram de um jeito mil vezes melhor depois que ele já tava morto.

RESCHEDULED – Welcome To Night Vale - The Wilbur

Atticus, o moço daquela cena no começo do post, fala sobre ignorar os defeitos das histórias. Mas seria isso realmente sábio? A senhora insiste que, você pode ignorar o quanto quiser, mas os defeitos vão continuar lá. Não importa o quanto você quer matar o autor, ele continua lá, assombrando qualquer artista fantástico que já tenha ganho um prêmio do World Fantasy Award.

A teoria da Morte do Autor foi concebida na segunda metade dos anos 60. A relação entre arte e artista estava mudando de maneira extremamente radical nessa época. A noção de que apenas certos gênios são capazes de criar arte estava aos poucos morrendo, já que pra fazer cinema – o tipo de arte mais popular e, ouso dizer, importante da época – era necessário muito mais do que apenas um “autor”. Além da direção você também precisa de alguém pra fazer a direção de fotografia, pra fazer a captura e a mixagem de som. Alguém pra montar os cenários e figurinos, pra revisar o roteiro e pra atuar todas as partes mais essenciais na frente da câmera. Se o cinema por natureza não tem autor, por que outras artes teriam?

Por essa visão, é bem fácil lidar com certos diretores cinema idiotas que fizeram filmes bons. Woody Allen, Tarantino, Joss Whedon, Tim Burton. Essa galera fez filmes bons, mas os filmes não são só deles. Tem as atrizes, diretoras de fotografia, galera do som, cameraman… Se não fosse o eletricista que nem aparece o nome nos créditos esses filmes não teriam se quer acontecido! Então é injusto associar esses filmes exclusivamente a esse bando de homem abusador e/ou estúpido. Os filmes bons associados a esses homens não são bons por causa deles. Eles são bons APESAR deles. E por mais misógino que seja o Quentin Tarantino, o Django ainda é um dos meus heróis favoritos.

30 antes dos 30: Django Unchained | Filipa Moreno

Segundo Roland Barthes, uma vez publicado, o trabalho artísitco não pertence às autoras. Eles pertencem às apreciadores desse trabalho, que irão decodificar e compreender a obra a partir das suas próprias experiências de vida. Mas essa não é, de forma alguma, a única maneira de se tratar obras de arte.

Filmes são mais fáceis de se analisar com a lente da Morte do Autor, e apreciar eles apesar dos seus pesares. Mas… Nem sempre.

Apocalypse Now é um filme de 1979 dirigido por Francis Ford Coppola e estrelado por Martin Sheen que se trata de um grupo de soldados americanos seguindo uma trilha de corpos e violência gratuita atrás de um outro soldado perdido no meio da guerra do Vietnã. Ele é um filme sobre violência e trauma extremos, e foi inspirado num livro que descreve violências ainda mais terríveis: O Coração das Trevas. E é interessante compreender que, além desse filme ser sobre violência e baseado num livro violento, ele foi feito com violência.

O documentário Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse, lançado em 1991 e dirigido pela própria esposa do Coppola, Eleanor Coppola, mostra de maneira celebratória todas as condições precárias, abusivas e violentas nas quais as pessoas que estavam trabalhando nesse filme tiveram que passar pra conseguir completá-lo.

Ele mostra desde trabalho escravo feito pelos vietnamitas pra ajudar com partes práticas da produção de set, até alguns atores desistindo dos seus papéis por que o diretor queria que eles fizessem coisas muito absurdas e ficava mudando o roteiro a cada 5 minutos. E tudo isso como se fosse uma coisa boa. O mau necessário para conseguir trazer a vida a visão de um autor genial.

Sabe a cena onde Martin Sheen está pelado no quarto, surtando e quebra o espelho num soco que deixa sua mão sangrando? Aquilo não foi atuação. O Martin Sheen estava extremamente estressado com as condições de trabalho do filme, e acabou surtando certa noite depois de ter ficado completamente entorpecido pelo álcool. E o diretor, em vez de ajudar o colega de trabalho que está se sacrificando tanto pelo seu filme, resolveu gravar tudo e ir incentivando surtos cada vez mais extremos enquanto gravava tudo pra colocar na sua porra de “obra prima”.

Como se mata um autor quando parece que ele estava ativamente querendo matar o resto da sua equipe pra fazer o filme acontecer?

(com uma guilhotina, burguês safado)

SIC Notícias | Sessão de cinema: “Apocalypse Now - Final Cut”

A separação entre autores e livros é ainda mais difícil do que a separação entre o Coppola e abuso emocional. Quando você lê a Narizinho dizendo que tem pena da Tia Anastácia por ela ser preta como você vai ignorar o fato de que esse livro, supostamente feito pra crianças, foi feito por um racista nojento que mais machucou a literatura brasileira do que ajudou?

Um tempo atrás eu vi uma editora que tava querendo republicar os trabalhos do lovecraft só que sem os termos racistas. Infelizmente eu não lembro qual editora queria fazer isso e eu não consegui mais achar post nenhum, mas eu fiquei muito tipo… ??????????

Pra que isso? Você precisa que a imagem de um homem racista seja bem vista nos dias de hoje então você vai tentar fingir que ele não era racista?

O energúmeno do Lovecraft não era só um racista passivo como a maior parte das pessoas brancas nas Américas. Todo o trabalho dele, toda a mitologia que ele criou é BASEADA em odiar gente preta. Em 1912 ele publicou um texto chamado “on the origin of niggers”, possivelmente um dos poemas mais desprezíveis que eu já tive a desgraça de ler e eu acho que não preciso dizer mais nada.

Mas vamos dizer que você leu Lovecraft, reconhece todas as problemáticas, e ainda acha a maior parte do seu trabalho legal. Massa! Não existe problema algum em gostar de alguma coisa feita de maneira problmemátia ou por pessoas ruins desde que se reconheça as partes ruins do seu trabalho. Eu adoro Samurai X e… Bleh.

E o Lovecraft ta morto, e o cara do Samurai X tá na cadeia. Nunca nenhum deles realmente lucrou com suas criações – sendo mais parte de uma máquina de produção de ficção bem particular do capitalismo que trata escritores em geral que nem lixo. Nenhum dos dois tem como ganhar nada com meu consumo das coisas que eles fizeram então foda-se e nem podem causar mais mal ao mundo ao seu redor do que eles já causaram. Então a gente mata o autor quando der, e quando não der a gente dá graças a deus q ele está literalmente morto (ou preso).

E esse definitivamente NÃO é o caso da Rowling.

J.K. Rowling Goes Full TERF in New Series of Transphobic Tweets

J.K. Rowling não é uma escritora de contos pra revistas obscuras dos Estados Unidos que ninguém com o mínimo de dignidade compra. E ela também não é um dos muitos escravos da Shonen Jump que são obrigados a desenhar séries de gibi inteiras sozinhos em troca de um mísero salário mínimo até o colapso da sociedade humana.

Não! Ela é uma romancista britânica! Rainha de um mercado onde um sucesso grande o suficiente pode literalmente te tornar milionária. E ela é milionária. O patrimônio dela é estimado entre 650 milhões e 1.2 BILHÕES de dólares. E se tem algo que pessoas com bilhões de dólares em patrimônio tem em comum… Essa coisa é poder. E tanto poder na mão de uma mulher que pode usas seu dinheiro e influência pra financiar terapias de conversão e atos políticos transfóbicos é muito perigoso.

Lá em Junho eu perguntei pra algumas fãs de Harry Potter dentro do meu cíclo pessoal com… Como elas se sentem tendo algo tão definidor pras suas infâncias sendo usado como arma política pra denegrir as suas vidas adultas?

A maior parte das pessoas com quem conversei parecia estar confusa. As pessoas cis, em geral, estavam tentando compartimentalizar a Rowling do mesmo jeito que acontece com o Lovecraft. Deixar o autor no canto dele e continuar aproveitando as histórias. E quando eu explicava que “continuar aproveitando as histórias” ainda singifica dar poder pras ações políticas extremamente reais e concretas que a Rowling pode vir a financiar.

A melhor resposta que eu vi pra essa crise vindo de um grande fanboy de harry potter foi a do Dominic Noble. Um youtuber gringo que faz resenhas de romances e suas adaptações cinematográficas.

E a resposta dele é emotiva, sofrida, mas bem simples e objetiva. Promover qualquer conteúdo relacionado a Harry Potter – livros, filmes, fanfics, props, o parque de diversões, restaurantes temáticos de HP, whatever – é promover uma transfóbica milionária com uma grande habilidade de influenciar as pessoas e usar esse poder pra destruir as vidas de pessoas trans HOJE. Então ele simplesmente não vai mais falar de nada relacionado a Harry Potter no seu canal, e, sinceramente… Como um criador de conteúdo, essa me parece definitivamente a forma mais responsável de lidar com essa história toda.

Caralho, já é 10 pra meia noite. Já deve ter saído episódio novo de Lovecraft Country.

Licença aí galera.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.