Todos os posts de feliciaguerreiro

Mulher trans, game designer, escritora e criadora do Felicia's Gaming Diary. Gosta de doces e de gatinhos.

Pais de Videogame e Masculinidade: Geralt e Kratos

Hoje é Yule, a noite mais longa do ano, onde o nascimento da Criança da Promessa coincide com a Caçada Selvagem de Odin.

Ano passado eu expliquei pra vocês os básicos do Yule e o que nós da Wicca celebramos no dia 21 de junho.[1] Mas pra quem não leu: Esse feriado se trata do nascimento da “Criança da Promessa”, onde celebramos as bênçãos da maternidade, da paternidade, e da união e amor familiares.

Naquele texto eu acabei expressando uma certa frustração por praticamente não existirem videogames sobre maternidade no mercado mainstream. Por outro lado, a Paternidade vem sido muito bem trabalhada nas últimas duas gerações. Parece lógico o motivo pelo qual isso acontece: A grande maioria dos desenvolvedores de videogame são homens e muitos deles hoje em dia tem filhos pequenos, e experiência pessoal suficiente com os desafios da paternidade que pode ser refletida nos seus trabalhos artísticos com exatidão.

Eu não sou pai nem mãe. Pretendo ter filhas algum dia na minha vida, mas eu estou muito longe da maturidade emocional e da condição financeira social para realmente criar uma criança. Entretanto, eu sou filha, já fui filho, e eu tenho pensando muito em como a relação com meu pai poderia ter sido diferente e mais sadia se ele visse os exemplos de pais que eu vejo nos videogames hoje em dia.

Spoilers de God of War III e God of War (2018) a frente.

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Naughty Dog e o Fascínio Com A Morte

Você já ouviu falar num livro chamado O Diário de Turner?

É horrível. Se você não leu ainda, considere-se abençoada. Esse livro vem sido usado como inspiração para ataques terroristas da extrema direita desde os anos 90 nos Estados Unidos, e é um resumo extremamente sucinto do que a essa visão política considera uma utopia, e o que é justo de ser feito para atingir essa utopia.

Tem resumos bem curtos e diretos sobre ele na internet [1] e esses resumos são todo o engajamento que você vai precisar ter com esse livro na sua vida inteira.

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Resenha: Horse Girl, Entre Realidades

Horse Girl (“Entre Realidades” no Brasil) é um filme que estreou no sundance film festival em janeiro de 2020 e foi distribuído para exibição doméstica pelo Netflix recentemente.

Eu resolvi assistir ele por inércia. A minha namorada e o nosso colega de apartamento acharam o trailer intrigante e eu não queria ficar sozinha no quarto olhando pro teto.

Ele conta a história de uma mulher chamada Sarah que sofre de algum tipo de psicose que eu não sei identificar. Chegando no que parece ser o ápice da sua solidão gerada pela a sua inadequação social, a personagem começa a ter sonhos estranhos e acreditar veemente que é um clone da própria vó e está constantemente sendo abduzida por alienígenas.

Fica aqui meu Trigger Warning pra descrição de crises psicóticas.

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Trivialização da morte e fantasias de superação

Eu tenho sentimentos muito intensos relacionados a bombas nucleares.

Isso pode soar um pouco ridículo, considerando que sou uma guria branca de 26 anos de idade que nasceu e viveu sua vida inteira no Brasil. Mas eu sempre sinto uma angústia muito profunda dentro de mim quando eu ouço falar sobre qualquer coisa envolvendo os ataques nucleares contra Hiroshima e Nagasaki no final da segunda guerra mundial.

Acho, então, que esse seja o motivo pelo qual o primeiro filme de Godzilla, de 1954, me causa tanta catarse emocional.

Você consegue parar pra imaginar o horror que representa o Godzilla? Um monstro tão grande e poderoso que é capaz de destruir o seu lar e matar todas as pessoas que você ama pelo simples ato de andar.

Além disso ele é indestrutível. Revivido pelas monstruosas armas nucleares da américa do norte, não existe nada que o pequeno arsenal de defesa pessoal do povo japonês possa fazer. E mesmo assim, o povo japonês perdura.

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Diário de Quarentena, 18º Dia

É um desafio enorme pra mim sempre ter alguma coisa pra falar aqui no blog. Eu tento ser mais relevante do que só mais um eco na câmara da “esquerda nerd brasileira”. Só que num mundo onde todo mundo pode expressar publicamente suas opiniões sobre qualquer coisa eu sinto que tudo que eu poderia falar já foi falado.

Acredito que todo mundo que lê o meu blog já conhece o conceito de achatar a curva, sabe as maneiras mais corretas de prevenção contra o vírus, sabe o quanto a economia do país vai sofrer pela quarentena e/ou pelas mortes, e provavelmente já sabe o quanto as estruturas do capitalismo serão inevitavelmente abaladas durante esse processo que pode durar vários meses.

Todo mundo ouviu comentários sobre o Bolsonaro, e sobre os governos dos estados tomando a responsabilidade pela sua população em suas próprias mãos.

A gente já ouviu de impeachment, processos do TSE e do trabalho do MST e do MTST diante dessa situação toda.

É uma corrente tão grande e tão cheia de informações e opiniões! Um misto de esperança e solidariedade com desespero e isolamento! E o pior é que a gente não pode fazer nada além ficar acumulando e acumulando sentimentos que não tem como serem expressos de maneira material até a pandemia passar.

Eu mesma fiquei um pouco sem ar escrevendo esses parágrafos. Meus sintomas de ansiedade tem piorado bastante nos últimos meses, e a situação que estamos passando hoje só deixa as coisas piores (o que me lembra que eu tenho que marcar consulta com psiquiatra aaaaaaaaaaaa)

Mas sabe qual é a pira que me faz pensar que, realmente, vai ficar tudo bem? Senta aí que eu te mostro.

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