Arquivo da categoria: Cinema

J.K. Rowling, H.P. Lovecraft e A Morte do Autor

Lovecraft Country, Episódio 1 Temporada 1.

Depois de serem rejeitados a carona em uma estrada no meio de lugar nenhum, Atticus Freeman, um homem negro que serviu o exército americano na época da segregação, ajuda uma senhora negra a carregar suas bagagens até a cidade mais próxima.

Na estrada, a senhora questiona Atticus sobre o livro que ele estava lendo, que se tratava nada mais nada menos do que menos do que John Carter, um ex general do exército no estado de Virgina que acaba sendo levado pro espaço e acaba se tornando um guerreiro marciano.

4 minutos e 58 segundos dentro do primeiro episódio de Lovecraft Country, Jordan Peele – diretor responsável por Nós, Corra! e, claro, Lovecraft Country – usa o diálogo entre as duas personagens para fazer a pergunta que eu acredito que o resto da série tentará responder.

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Resenha: Horse Girl, Entre Realidades

Horse Girl (“Entre Realidades” no Brasil) é um filme que estreou no sundance film festival em janeiro de 2020 e foi distribuído para exibição doméstica pelo Netflix recentemente.

Eu resolvi assistir ele por inércia. A minha namorada e o nosso colega de apartamento acharam o trailer intrigante e eu não queria ficar sozinha no quarto olhando pro teto.

Ele conta a história de uma mulher chamada Sarah que sofre de algum tipo de psicose que eu não sei identificar. Chegando no que parece ser o ápice da sua solidão gerada pela a sua inadequação social, a personagem começa a ter sonhos estranhos e acreditar veemente que é um clone da própria vó e está constantemente sendo abduzida por alienígenas.

Fica aqui meu Trigger Warning pra descrição de crises psicóticas.

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Trivialização da morte e fantasias de superação

Eu tenho sentimentos muito intensos relacionados a bombas nucleares.

Isso pode soar um pouco ridículo, considerando que sou uma guria branca de 26 anos de idade que nasceu e viveu sua vida inteira no Brasil. Mas eu sempre sinto uma angústia muito profunda dentro de mim quando eu ouço falar sobre qualquer coisa envolvendo os ataques nucleares contra Hiroshima e Nagasaki no final da segunda guerra mundial.

Acho, então, que esse seja o motivo pelo qual o primeiro filme de Godzilla, de 1954, me causa tanta catarse emocional.

Você consegue parar pra imaginar o horror que representa o Godzilla? Um monstro tão grande e poderoso que é capaz de destruir o seu lar e matar todas as pessoas que você ama pelo simples ato de andar.

Além disso ele é indestrutível. Revivido pelas monstruosas armas nucleares da américa do norte, não existe nada que o pequeno arsenal de defesa pessoal do povo japonês possa fazer. E mesmo assim, o povo japonês perdura.

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Por que eu me recusei a assistir Star Wars Episódio IX: A Ascenção Skywalker

No finalzinho do ano passado eu decidi assistir todos os Star Wars com minha namorada em ordem cronológica.

Nós duas crescemos com Star Wars, sempre amamos a franquia mesmo nos seus pontos mais baixos, e ambas acreditávamos que a aquisição da Disney tinha sido a melhor coisa que aconteceu com Star Wars desde as Guerras Clônicas do Cartoon Network (aquele desenho 2D).

Ahhhh hahahahaha! Ledo engano, mocinhas.

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Assistir Netflix E Jogar Videogame Virou Trabalho

Você consome, vive, experimenta ou decodifica mídia? Mike Rugnetta fez essa pergunta em 2016, e hoje com os anúncios de que a Netflix vai te permitir assistir o seu acervo em 1.5x a velocidade normal essa pergunta volta pra minha cabeça.

Stuart Hall argumenta que o consumo de mídia não é passivo. Experimentar arte é um processo complexo de codificação e decodificação que sempre acontece de uma decisão ativa da parte consumidora de fazer parte desse processo. Esse consumo resultará em algum subproduto – geralmente na forma de opiniões, crenças, posicionamentos, sentimentos, reflexões e outras obras de arte que a própria consumidora pode criar – sob o qual as experiências, crenças e pontos de vista do próprio consumidor terão ainda mais peso do que aquilo que o próprio autor colocou sobre a mídia que foi consumida.

Existem várias formas de consumir mídia, e, a partir desse ponto de vista, Rugnetta argumenta que o ato do que nós fazemos com mídia na verdade é uma decodificação – não um consumo – que exige todas essas experiências e decisões para criar diferentes subprodutos. Por isso pessoas diferentes podem ter leituras diferentes da mesma obra, ou uma pessoa só é capaz de ler uma obra de várias formas diferentes sem que nenhuma delas esteja inerentemente “certa” ou “errada”.

A mídia, entretanto, e as obras de arte em particular, vem sido sucateadas pelo neo liberalismo que dita que todas as faces das nossas vidas devem ser produtivas de alguma maneira. Consumo ou decodificação de arte outra hora foi prazer, mas agora é um trabalho que quase todas nós tomamos parte. E não parece haver escapatória.

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